segunda-feira, 16 de maio de 2011

Poema de Merda Poética

Após em sonhos me perder,
Tenho um estranho despertar
Tenho vontade de merda escrever
Ou poesia cagar?

E a culpa, em quem colocar?
No livro insano que ontem eu li?
Na feijoada enlatada que ontem comi?

A vingança interna não cabe mais em mim
O desejo de justiça e liberdade se espreme pra sair
Sento na privada, só me vem devaneios sem fim
Penso na amada, só vem aquele cheiro ruim a subir

Me tire daqui! -A poesia implorando a gritar-
Me tire deste corpo apertado que já não me suporta
Dê descarga, e mande ao esgoto o que já não importa
A merda, por sua vez, só quer se eternizar:
Me passe para o papel! É assim que quero partir
Entre o lixo e o incômodo biológico do existir

Olhem bem que homem me tornei!
Não sei o que declamar, ao que limpar
Mas sei bem o que farei
Se acaso me permitirem delirar.

As Quatro Gordas do meu Apocalipse - Parte 1

Fazia quatro gordas que eu não era feliz. Fazia três meses que eu só comia gordas, gordas, gordas e a Duda, uma cheiinha que também incluirei na raça das gordas para aumentar o meu drama. Conto sobre ela e as demais gordas mais tarde. Agora é hora de falar do meu inferno e das reencarnações que fui obrigado a passar lá. Falarei desse tormento maldito que vivi, e que ainda sinto que foi tudo graças a alguma maldição demoníaca da minha ex, Gabi.

Gabi, aquela que eu mais comi (com o perdão da rima), não tinha nada de gorda. Tinha o corpo inteiramente suculento. Gostosa com todas as letras, com todos os peitos redondos, branquinhos e ainda com mamilos rosa. Uma daquelas mulheres gostosinhas desde pequena. Chegou até a tentar dar uns passos como modelo na pré-adolescência, por incentivo dos seus sonhos medíocres de classe média. Não aguentou muito tempo. Mandou tudo à merda (acho que é daí que vem sua mania de mandar tudo à merda) e resolveu perder a virgindade com quatorze anos, dando pra um marginalzinho qualquer da zona norte.

Merdas e merdas, anos e anos depois, Gabi me conheceu numa dessas festas de “cheire quanta cocaína que seu nariz puder” e acabamos nos encaixando, literalmente. Acho que ela via em mim afinidade, o mesmo passado promissor e o futuro com nada pela frente. Enquanto isso, eu via nela aqueles peitos redondos, branquinhos e com mamilos posicionados milimetricamente no lugar certo.

Um dia, enquanto eu a tocava, ela se tocou. Deu uma dessas crises de mulher louca e disse que queria terminar. Me mandou à merda. Nem me importei, apesar de forjar uma cara de desentendido. Fiquei triste mesmo por não poder ter terminado o serviço e de ter de guardar o pau duro na calça jeans. No mais, sempre soube que esse dia chegaria. Era só questão de tempo. Questão de merda, ela mandava todos e tudo à merda. Ouvi tudo e logo percebi que ela não queria me ouvir. Sai de sua casa e prometi ligar pra ela mais tarde, para marcar o término da trepada, quer dizer, para conversarmos melhor. Ela continuou me mandando à merda.

Virei a esquina da sua rua e ainda ouvia seus palavrões. Felizmente, palavrões sempre me remetem a liberdade. Logo comecei a imaginar a liberdade que me esperava. Imaginava a quantidade de gostosas que poderia comer. Por alguns segundos de insanidade, até pensei “ela nem era tão gostosa assim”. Imaginava as orgias que estavam por vir, com mulatas, japonesas e gêmeas suecas. Mas nenhuma dessas vieram.

Vivi na merda, assim como Gabi havia desejado. Vivi, isso é, sobrevivi de filmes pornôs, punhetas e prostitutas baratas. Minha aceitação de pós fim de relacionamento durou muito pouco. Ligava para Gabi praticamente todas as noites. Queria dizer o quanto sentia falta de chupar aqueles peitos. Queria ouvi-la dizendo o quanto sentia falta de me chupar. Mas Gabi nunca me atendeu. Talvez por ter mudado o número do celular, por estar dando pra qualquer um da zona norte, ou por medo de não se segurar de tesão ao me ouvir falando de peitos, saudades e perdão. Acho que nunca saberei.

As Quatro Gordas do meu Apocalipse - Parte 2

O que sei é que tentei de todo jeito esquecer aquela vadia. Fui até na igreja um dia, pra ver se tirava a urucubaca. Na igreja comecei a viver meu purgatório. Lá do último banco, avistei uma gorda que era amiga da Gabi. Gláucia era uma dessas amigas gordas que sempre invejaram Gabi por ser gostosa. Provavelmente devia estar ali rezando para Santo Expedito te encontrar um pau amigo, de tão feia que era. Trocamos alguns olhares e saímos antes mesmo do sermão terminar. Falando pelo canto da boca, mandei o padre à merda. A gorda achou aquilo o máximo, mas disse que ainda havia muito da Gabi em mim e prometeu que me faria esquecer ela rapidinho.

Comi a Gláucia por algumas semanas. Enquanto a comia, sentia a falta de poder aguentar uma mulher cavalgando em cima. Ao contrário do que ela havia me prometido, eu só conseguia me lembrar cada vez mais de Gabi. Tentei esquecê-la, ou encontrá-la em mais duas outras gordas quaisquer. Vanessa e Bárbara. Não adiantou. Trepavam como gordas.

Comi também a Duda, que era cheiinha. Bem melhor do que as outras três gordas anteriores, mas ainda assim gordinha. Senti que aquilo poderia ser o início de uma nova era. Duda era a transição entre a gostosura e a gordura. Aquilo parecia ser a transição do meu purgatório em paraíso. Tempos melhores viriam.

Duda era também inteligente e simpática. Nos dávamos bem. Certa vez até a apresentei como namorada para um amigo. Fábio, por sua vez, dias depois me apresentou sua namorada. Linda, com o ar blasè, voz de entediada e um quadril que me levaria à loucura na primeira mordida que desse. E ainda por cima, magra.

Como estou pouco me fudendo para amigos e sentimentozinhos melodramáticos, tratei logo de ir dispensando a Duda e de ir enganando o idiota do Fábio. E foi mais fácil do que pegar gordas.

Bianca, a magrela blasè, me ajudou bastante. Não se fez de difícil nem de puritana. Parecia ter lido em meus olhos a necessidade que eu tinha de comê-la. Após dois dias de conversa no celular, consegui convencê-la a ir ao meu apartamento.

Quando ela tocou o interfone, ouvi uma espécie de harpa celestial tocada por anjos. Eu subiria aos céus novamente, e prometi pra mim mesmo não sair de lá tão cedo. Nada de gordas, falta de fôlego, fracassos pessoais de masculinidade ou posições desconfortáveis. Nada de lembrar de Gabi e me humilhar, rastejando como um verme no cio. Aquela era a minha hora.

Fui logo a atacando. Beijei-a e retirei com força seus seios pra fora. Não eram perfeitos como o de Gabi. Senti certa fraqueza, decepção. Algo em mim me dava vontade de chorar, desistir e me contentar com gordas pelo resto da vida. Mas continuei. Apaguei as luzes do apartamento como uma virgem de quinze anos. Ela perguntou se eu me sentia inseguro com meu pênis ou sei lá o quê. Respondi que sei lá o quê. Ela parecia ser bem experiente, mas estava começando a se sentir incomodada com aquela situação. Não me importei. Continuei a chupando e a apertando, sem dar muito valor aos seios, ainda com certo receio. No final, ela parecia ter gostado. Acendi às luzes e esbocei algumas palavras, apesar de bufar de cansaço como um búfalo.

Bianca me definiu como uma estranha mistura entre inocência e vulgaridade. Eu respondi dizendo que a inocência e vulgaridade estão nos olhos de quem as vê. Eu só estava me sendo.

Hoje estou livre da maldição. Subi aos céus outra vez, mas resolvi voltar ao purgatório, onde se há mais gente como eu. E ainda sinto saudades do meu demônio, Gabi. Um lindo demônio que adorava me fazer cair em tentação, com aquela insanidade e com aqueles peitos. Ah, aqueles peitos...

sábado, 14 de maio de 2011

Sábado Quatorze

Sorte de quem se sente pássaro usando os olhos para ouvir o silêncio.

Sorte de quem usa a infância para se lembrar de como se guarda a alma em cima duma árvore.

Sorte de quem se lembra de incluir em suas orações um “livrai-nos da sensatez, amém”. E nisso, inclua a sorte de quem não sabe se amém se escreve com m ou n, então promete aprender latim no próximo ano. E junto com o latim, vai aprender a fazer pipoca doce, vai ligar mais para sua mãe e quem sabe até largar o cigarro.

Sorte de quem teme que o pão volte a custar trinta centavos. De quem teme que a prefeitura volte a cortar a árvore em frente a sua casa. Sorte de quem teme, mas nunca teme a Deus. De quem conversa com ele, de quem já não procura entender e de quem espertamente se finge de ateu quando um crente bate a sua porta às oito da manhã.

Sorte de quem é chamado de louco, de desperdiçado. De quem desplanejou o futuro e pretende continuar pobre. De quem tem vontade de fugir pro mato, mandando tudo à merda, mas lembra-se que ainda há muitos livros para serem lidos e muitos amigos para serem reencontrados e reinventados.

Sorte de quem sabe cozinhar, mas não aos domingos, por acordar tarde demais. Então enfia cinco mangos no bolso e sai pra rua, se esquecendo de como anda cara essa coisa de viver. E na rua, sente falta de alguém. Pensa na amada umas duas vezes, mas se esquece completamente quando vê uma garota de dezenove anos com seu balançar de bunda esculpida por toda a volúpia desse mundo.

Sorte de quem faz barquinho com todo papel de propaganda de supermercado. Sorte de quem ainda se lembra das canções cantadas pela avó. E acha uma besteira só todas essas músicas novas e histórias mal-inventadas que passam na tevê.

Sorte de quem, no sábado, descobre uma peça gratuita e decide chegar cedo ao teatro, por achar que vai lotar. Descobre então que os teatros não se lotam em sua cidade. Sorte dessa cidade ainda conter a sua infância.

Sorte de quem se vê criança, se vê árvore, se vê pássaro, se vê sem ser visto.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Vem cá e faz melhor

Disputa, competição, vencedores e perdedores. Nada disso me atrai. Dizem por aí que o amor é um jogo, que a vida é um jogo, mas que um jogo não é um jogo, é só sorte. Sorte de quem acredita nessas contradições. Sempre me contrario em definições. Me perco em amores, me venço em temores e me empato em muitos, porque muito ainda me resta desse direito (defeito).

Mostro logo na primeira conversa meia dúzia de defeitos. Indeciso, nunca sei se digo oi ou olá. Depois disso, tempo algum ou tempo nenhum, passa. Por não ser desse tempo e por sobriedade de sobra, me sobra pouco. Sou imposto a caminhos não desejados, a desejos não renovados, a defeitos imperfeitos.

Desejando ou não, assim vou caminhando, com todos defeitos à mostra. Não há problemas em tê-los, a não ser que eles apresentem defeitos, como os meus. Meus defeitos são chatos demais, me obedecem e seguem comigo na coleira, sem latir. Esses defeitos já domados, que dão a pata e se fingem de morto se você pedir. Chatos demais, chatos. Monótonos, nada selvagens. Defeitos que se acostumam.


Dica para a felicidade eterna: venha e faça pior, do jeito que precisa ser.

Passe

As pessoas passam. Passam, passaram, passarão. As pessoas tem passado. E nesse passo, passo também. Passo esperando o que não vem de pressa: a maturidade. O quanto me exponho, o quanto fantasio o cotidiano, o quanto de tanto tem passado em minha mente. E o quanto eles ainda me são? Espero uma mudança de ideias. Algum (ns) lado (s) está (ão) errado (s). Já aviso: passo pra trás eu não dou. Não esqueço nada, muito menos me faço de durão. Perdoo sim, e até facilmente. Isso deve estar bem escancarado na minha cara, na minha cara a tapas. Estapei-me. Não espere a outra face assim como espero desculpas. Quer dizer, me desculpe. Mil desculpas. Não era bem isso queria dizer. Não era bem isso que gostaria de ouvir. Não era assim que gostaria de ser. Não era assim que gostaria de te ter. Não era assim. Já não era sem tempo. Já era.



Tempo.


quarta-feira, 6 de abril de 2011

Cara de Pai

São seis e meia da manhã. Minha mãe aparece para me acordar, falando que tenho aula e que preciso correr pra não me atrasar. Me incomoda a cara de merda que ela faz quando fala comigo, principalmente quando me acorda. Ela demonstra frieza, ou quem sabe um profissionalismo de mãe. Não se envolve com trabalho. Lugar de se divertir é lá fora, aqui dentro de casa ela é mãe, só mãe. Mãe: aquela que te acorda xingando caso você perca a hora, mas te acorda.

Digo que o despertador não tocou. Ela esfria ainda mais sua cara, como se respondesse subitamente: sei que adianta seu relógio nas quartas-feiras, para ver se perde a aula de química. Ou até mesmo: sei que sempre usa cueca branca nas sextas, para agradar os caprichos da Juliana, caso consiga matar aula com ela no último horário, em sua casa, enquanto o pai dela sai para fazer jogos na loteria. "Eu sei muito, muito. Contemple minha expressão frígida, seu imbecil".

E a cara dela de frieza, mostrando que sabe muito, me incomoda. Talvez ela queira demonstrar que mesmo não prestando atenção em mim, consegue facilmente me decodificar. Talvez ela queira demonstrar que sou mesmo igual a todos os outros. Talvez seja só coisa de mãe.

Na sua cara pós-acordamento-de-filho, também inclui um singelo "arrume sua cama e faça seu próprio café". Nessa hora sempre me lembro de quando ela costumava fazer a melhor salada de frutas matinal do mundo, e imagino a satisfação que ela teria se descobrisse o quanto sinto falta daquilo. Hoje, tenho que me contentar com minhas habilidades, de preparar um Toddy, um pão com qualquer coisa, uma banana e uma bolacha, para levar na mochila.

Embaixo da minha calça jeans, ainda está meu pijama cinza, que ganhei da minha avó. Sinal de que está muito frio. Sinal de que tenho muita preguiça ou quinze minutos é muito pouco para acordar, trocar de roupa, arrumar a cama e preparar o Toddy. Sinal de que hoje estou pouco me fudendo para caprichos de qualquer garota.

Antes de sair, ela me deseja a companhia de Deus. Antes, desejava-me também juízo. Hoje, já deve ter se tocado que ao contrário dela, não me divirto lá fora. Ainda assim, a agradeço. E lanço em troca minha cara de "pode deixar que passo no açougue na volta, para trazer a carne do almoço". Sei que do alto da sua independência, sabedoria e cara frígida, isso não deve fazer tanta diferença. Mesmo assim me imponho, tentando harmonizar qualquer devaneio perdido em minha mente. Talvez seja só coisa de filho.


Às vezes, no meio do caminho para a escola, me perco em tristezas e tento livrar minhas memórias da cara de frieza da minha mãe. Tento me lembrar da cara do meu pai, mas já faz tempo que não o vejo.