sábado, 8 de outubro de 2011
Poema das Sete Putas
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Palavrada
"Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira."
Manoel de Barros
1- Palavra, coisa besta que não basta. (Nem pros bastardos)
Palavra pra nome nem falo. Não nomeio: não falho.
Deslimito.
Palavra pra mim gosta de poesia.
Todas as coisas poderiam falar por mim. Mas só dou liberdade pras que falam em poesia.
Eu dou poesia.
Poesia é a arte da liberdade. Vem direto do nada rumo a lugar nenhum.
Dá voltas e voltas por aí. Nem precisava, pois é onipresente. Mas passeia só de passeio. Só de poesia.
Se confunde com nuvens (expansão de pássaros).
Se confunde com o nu.
Em mim só confunde.
2- Não confunda essa confissão com confusão.
3- Liberdade é a voz da alma desterrada. Eu grito!
Alguém escuta?
Aí que tá a coisa:
A palavra me tem por completo porque é cúmplice da minha incomplitude.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
terça-feira, 12 de julho de 2011
Igor
Prostrado, arqueado em sua velha cama repensava enésimas vezes sobre suas mesmas frustrações diárias. Essa era a sua lei, sua rotina: falhar desde o amanhecer e ressuscitar o fracasso todas as noites, como se algo em si, algum dia, tivesse poder de mudança. Perdia-se na relatividade dessa tal mudança que se dizia ser feita no mundo lá fora, mas que dentro de si, permanecia inerte. Amigos, mulheres, vícios, dívidas, putas, sentimentos. Mudavam-se apenas os nomes. Uma eterna dança incontrolável de déjà-vus regida pelo círculo vicioso do simples despertar de um dia seguinte. Bastava um alvorecer de suas pálpebras cansadas e lá estava ele a contemplar mais uma vez seus dilemas inpalpáveis. Sentia vontade de matéria, de poder arremessar tudo com suas mãos. De apertar, rasgar, tatear, de se fazer sentido. Mas não podia, tudo estava em sua mente, em suas divagações, suas memórias. Ah, suas memórias! Quantas vezes tentou se livrar deste labirinto funesto revirador de dores...
Buscava refúgios, de todos os tipos. Amparos, ignorâncias, libidos, ilusões. Inutilidades. Frustrava-se sempre, pois nunca foi capaz de alcançar a liberdade de sair de si.
Embora negasse a si mesmo, frequentemente seus devaneios debilitados o levavam a ela, a acomodadora de inadequações, a morte. Não pensava em dar-se ao fim, nunca. Faltava-lhe coragem, faltava-lhe mudança. Tentava adquirir reciprocidade com pactos que fazia com uma força espiritual, que apesar de inominada aos seus conhecimentos, era crida. Não abominaria a benção, seja qual for sua origem, de morrer dormindo. Seria seu momento. Esperava por uma morte que contrariasse sua vida. Morte tranquila, desejada. Prostrado, arqueado em sua velha cama, escrevia.
domingo, 10 de julho de 2011
Fraquejo
À moda antiga?
Na verdade eu mal consigo imaginar como esteja o cabelo dela hoje em dia. Se ainda usa o mesmo perfume, se mora no mesmo lugar ou se ainda sente atração por fracassados. As bandas que amaria até o resto da vida, tenho certeza que mudaram. Ela sempre seguiu os tempos coletivos. Várias modas já se passaram desde a última vez que a abracei. E eu continuo aqui, não me adaptando a nenhuma delas e não encaixando bem em nenhum abraço.
Sempre tive a sensação de prepotência de fracassado. Eu só precisaria de uma chance? Se ela fosse por mim, não existiria nada nem ninguém que a faria mudar de ideia. Falta de modéstia? Vontade de me explicar, de me aceitar, de me assegurar dentro de mim a fim de descobrir que nem todo fracasso foi em vão.
O problema é minha confiança, nunca em doses certas. Ou me falta, a ponto de cair na realidade e me perceber como sou. Ou me sobra, achando que o fracasso é só questão de ponto de vista e que assim devo ser, até que a empatia se sobreponha a inadequação.
Não me pertenço?
Preciso da eterna busca de virtudes ocultas. O exato, escancarado, o gratuito, nunca me completou. A procura desse feixe de luz externo vem da escuridão interna? É por ter demais a mostrar? Chega a incomodar tudo isso que, até segunda ordem (ou segundo amor), está escondido em mim. Guardado ali, quietinho, embaixo de tantas decepções e precauções, defendendo. Carrego no olhar a angústia de não saber o quanto mudei, o quanto preciso mudar.
Vem, esbarre em mim qualquer domingo na rua e lance de volta seu sorriso sem graça. Me confunda, me contradiga outra vez.
Desculpe pela sinceridade
Pare. Pense um pouco sobre essa angústia/egoísmo de buscar o amor de alguém. Já tá me enchendo o saco ficar aqui lembrando dela, escrevendo, tentando identificá-la em alguma música ou filme imbecil. Tô achando que só esse incomodozinho chato que sinto já me dá autoridade de entendedor de poesia, de filosofia juvenil de boteco de velho, de amor. Quanta falta do que fazer, meu Deus!
Dá vontade de quietar um pouco. Sanidade sim, sanidade não, me pego imaginando o após: a tranquilidade extasiada de me ter nela e nada mais. Nada mais de melodramas! Dá vontade de ser lembrado só pra ser merecedor do dom de esquecer. Isso é pedir demais? Isso é de pedir? É isso?
Se segura aí! Vai com calma! Tá todo mundo falando isso comigo e tem de dar tempo ao tempo e não sei o quê. Acho que descobriram minha destreza de disfarçar ansiedade como paciência. Vão me chamar de louco. Aceito, se puder ser apenas ser louco. Ou preciso da loucura de me justificar apaixonado?
Não é hipocrisia não, juro. No máximo autodefesa que nasceu por intuição covarde. Coisa que vem de dentro mesmo, nada de psicanálise ou cigarrinho da liberdade. Coisa que não resolve. Agonia. Acredite se me quer.
Sei que ninguém compra vira-lata. Tô me doando.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Gráfica Itaúna
Eu conhecia pouco sobre a cidade vizinha, Itaúna. Sabia que por lá se faziam calendários para abastecer minha querida princesinha do Oeste, Divinópolis. Todo ano era só começar novembro pro Zé Afonso, um vizinho aqui do bairro, começar a distribuir calendários do ano seguinte pra todo mundo.
–Oia gente, toma aqui uns calendários procês, é do meu sobrinho lá de Itaúna que tem uma gráfica e mandou pra mim distribuir, porque tenho muitos amigos e sou bão pra divulgar.
Todo ano era a mesma história, mas ele insistia em contar e eu achava um ato de muita educação fingir que não conhecia o que ele tava falando.
-Ah é, Zé? Ele tem uma gráfica?
-Tem sim, uai. Tá duvidando? E tá rachando de ganhar dinheiro lá, porque lá que é lugar bão pra ficar rico. Tá com um carrão zero quilômetro e come as muié que ele quiser. Aqui num tá com nada não. Se eu fosse igual ocês que tão novo eu ia pra lá fazer a vida.
O Zé tinha um complexo de inferioridade diferente só porque era inferior. Fazia questão de falar o quanto era humilde, o quanto era esperto e que só não tinha ficado rico porque não ligava pra essas coisas quando era mais novo. Falava também sobre o quanto a família dele e os amigos de infância tinham ficado bem sucedidos.
Nunca cheguei a ver ninguém da família dele. Os amigos dele, ou ex-amigos, via como um flash atrás de um vidro dianteiro de algum carro. Todo carrão que passava na rua buzinava pra ele e gritava: “E aí Zé!”. Então o Zé gritava de volta: “E aí viadão!”. E então o Zé parava um pouco de sua vida parada para me contar todas as histórias podres de juventude dos caras que passavam com carrão. Segundos, buzinadas e um súbito grito de cumprimento eram suficientes para o Zé mergulhar em suas memórias e ficar ali me contando por longos minutos sobre a vida alheia.
-...e agora esse viado aí tá podre de rico. Tá morando lá no Bom Pastor e todo ano troca de carro.
E todo ano seguinte chegava fevereiro e o Zé ainda tava com um monte de calendário da Gráfica Itaúna. Aí ele começava a distribuir mais uma vez pra todo mundo.
-Toma aqui mais uns calendários pra você. Aproveita e leva uns pra sua vó e outro pra sua tia. Toma, se quiser leva esses aqui pra sua professora que deve precisar muito de gráfica.
(Acho que o Zé nem sabia direito pra que servia uma gráfica, só imaginava que era coisa de gente importante, estudada e subida na vida).
-Uai Zé, Brigado. Mas cê já me deu um monte ano passado. Se quiser guardar esses aí pra dar pro resto dos seus amigos, num incomodo não.
-Ahh, pode levar essas desgraças aí e faz o que quiser com essa porra. Se quiser queimar tudo, pode queimar, nem ligo. Só quero dar um fim nesses trem. Todo ano o viado do meu sobrinho só sabe me dar esse monte de calendário. Nem pra passar aqui em casa e me dar ao menos um frango de natal. É assim, tá vendo? A gente faz tudo pra família e pros amigos e quando eles sobem na vida esquecem que você existe.
-Tá certo Zé, tá certo. Esse povo é assim mesmo. Mas pode me dar um pouco desses calendários aí que eu sei de um monte de gente que tá precisando. Afinal, o ano só começa depois do Carnaval, num é mesmo?
Todo começo de ano eu percebia que os amigos do Zé nem eram assim mais tão amigos e que ele nem tinha a família tão subida na vida. Mas ele tinha um dom danado de me fazer pensar nas coisas.