domingo, 2 de fevereiro de 2014

Dois de Fevereiro

-Não me venha com essa, Neide. Sabe muito bem que deve ter sim algo em especial nesse menino. Onde já se viu nascer no dia do aniversário do pai? É muito orgulho. Me enche de orgulho esse muleque. Dentro de tantos dias do ano, 365 não é Neide? Dentro de tantos dias e ele escolhe justamente o meu pra nascer. E depois você ainda não quer que ele seja meu preferido?

-Seu imbecil! Você não pode ter isso de filho preferido! Fica aí mimando o Ricardinho e ele tá crescendo um idiota completo e ainda vai conseguir a façanha, Alberto, vai conseguir a façanha de ser um homem mais idiota do que você. Você, Alberto, você que é um idiota completo e todo mundo sabe, mas ó: eu vou me separar mesmo de você, não é de hoje que falo isso, vou me separar mesmo e você vai ver! Agora filho não, Alberto. Filho é pra sempre. Não quero que o Ricardinho seja imbecil igual a você e case com uma mulher boa que vai sofrer igual eu. E o pior é que mulher assim arranja, Alberto, arranja porque você me arranjou. Eu era tão jovem, bonita, cheia de vida e ainda me casei com você... e não tem isso de escolher o dia pra nascer, seu imbecil! É a última vez que te falo e eu vou me separar de você logo, vou sim, eu vou...

-Ah tá? Agora a culpa é só minha? Isso, isso. Clap, clap, clap. “Vamos botar a culpa no Alberto”. “Vamos botar TODA A CULPA nele”. Desde MILNOVECENTOSESETENTAEUM Alberto Augusto Ferreira levando a culpa de tudo. É impressionante, Neide. O Ricardinho faz de tudo por um pouco de atenção e você sempre ignorando o pobre do seu próprio filho. Não foi no futebol semana passada pra ir na casa da sua mãe com você. Não foi no cinema com a Patrícia porque eu tive que te dar dinheiro pra comprar suas coisas não sei onde. Ele tentando esquecer a Bianca e nem pode ir no cinema com outra. E sem contar que, você sabe, largou a Bianca POR SUA CAUSA e até hoje sofre por ela. Onde já se viu, Neide? Não te pesa a consciência? Largou aquela bonitinha da Bia por causa de você que ficava cismando que ela parecia com a Cláudia... E você nunca vai entender isso, não é, Neide? Agora o coitado do Ricardinho perdeu um mulherão daquele, linda, linda. Olhos verdes, loirinha, educada, de família, o bairro todo queria. E ele consegue pegar ela e ficar com ela e gostar dela e tudo com ela, você sabe que ele fez tudo. Mas nem tudo é suficiente, não é? Agora ele vai ser obrigado a acabar casando com outra que não gosta. E larga de bobeira, Neide. Sabe que isso não tem nada a ver com a Cláudia. Foi só um lance de juventude nada mais. Passou, passou. Eu nem penso mais nela e no que seria se tivesse ficado com ela. Bonita ela tá sim, Neide, bonita ela tá. Tá conservada? Tá, é verdade. Mas vai falar que agora a culpa é minha? Bonita ela sempre foi e se ela se conserva é bom sinal, não é? Sinal que tá bem de saúde. Deveria servir de exemplo, eu não tenho culpa, tenho? E você sabe que nem era pro Ricardinho nascer dia dois. Ele mesmo se adiantou para nascer no dia do pai. Ou você não lembra disso, Neide? A própria mãe não lembra do dia do nascimento do filho. Típico seu, Neide. Você que todo ano faz tanta festa e tanto fuê pro aniversário do Tiago e da Laís. Mas pro filho do meio, sobra alguma coisa? Nada... e ainda reclama dele ser meu preferido.

-De novo a vaca da Cláudia, Alberto? De novo? E o respeito? Não tem mais mesmo? Acabou o pouco que tinha? Então vai lá, garanhão. Vai lá e fica com ela. Vamos ver se ela vai te querer. Aquela vaca velha gorda enrugada cheia de maquiagem com plástica mal feita piranha baranga mal vestida. Vai lá então, já que acha ela tão bonita e vamos ver então se ela vai te querer. Você todo barrigudo aí fica se achando jovem. “Nossa, olha que velho maneiro, gente... ele usa as roupas do filho de dezenove anos”. Ridículo, Alberto, ridículo. Fica aí usando as roupas do Ricardinho e achando que tá jovem. Cria tipo de gente, velho ridículo. Tanta roupa boa de homem sério e fica aí usando camisetinha de marca dando uma de jovem. E faço sim a festa que quiser no aniversário do Tiago e da Laís. Tenho que fazer festa porque você não dá um presente bom pros dois, é só Ricardo, Ricardo, Ricardo. Ricardinho no céu. Óh, Santo Ricardinho...

-Eu uso a roupa que eu quiser, viu Neide? Uso mesmo porque fica bom em mim e além do mais, foi com o dinheiro de quem que ele comprou? Com meu dinheiro. Aliás, uso só umas duas ou três camisetas, as outras duas foi ELE que me deu de aniversário. O Tiago e a Laís não, só servem pra me dar chinelo e lenço de aniversário. Tá certo, eu gosto, gosto deles. Reconheço o esforço deles pra me agradar e essas coisas, mas com o Ricardinho é diferente. Ele me entende. O único dessa casa que me entende e sabe do que eu gosto. Vai dizer que não tem uma ligação? E você aí, toda enciumada é porque sabe que eu estou novo e essas roupas ficam boas em mim e você não pode usar roupa nenhuma da Laís porque engordou e envelheceu. Fica, fica com os dois. Dois filhos só pra você e eu só quero um. Do que ainda reclama? Eu nunca fui o filho preferido do meu pai e me dei bem na vida!

-Se deu bem na vida, Alberto? Em que vida? Porque se for na vida de marido e de pai, sinto te dizer mas você é um fracasso!

Alberto não respondeu mais. Suspirou fundo. Foi até a geladeira e pegou uma cerveja. Virou no corredor e foi rumo ao quarto de Ricardinho. Ouviu Neide gritar: Ai dela se ela visse o marido dando um gole de cerveja pra um filho dela debaixo do seu próprio teto. Alberto também não respondeu. Também não achou Ricardinho no quarto. Apenas a bagunça de seu quarto. Em cima da cama, uma camiseta amassada. Pegou, amassou, sentiu o cem por cento de algodão. Se perguntava se essa era a daquela marca que Ricardinho tanto pediu para ele no mês anterior. Não, não era. Acabou se lembrando do dia que Ricardinho saiu com Bianca. Ele estava com essa camiseta da gola bonita. Camiseta cheirosa. Alberto cheirou a camiseta. Que cheiro bom. Era de Ricardinho? Era de Bianca? Por que não podia ser de Alberto?

Tirou sua camiseta velha e de velho. E com ela enxugou suas lágrimas, enxugou seu suor. Vestiu a camiseta de Ricardinho. Se olhou no espelho. Ficou bem. Ficava bem com aquela camiseta, com aquele cheiro. Aquele cheiro haveria de ser dele. Murchou a barriga, endireitou sua coluna. Colocou a mão dentro do bolso da camiseta. Achou um papel amassado. Bianca: Rua Rio de Janeiro, 455.

Pegou o carro. Não respondeu Neide dizendo aonde ia.

Neide se preocupou. Será que voltaria tarde? Será que daria tempo de ligar para o Lucas, amigo do Ricardinho? Era melhor não arriscar. Amanhã Alberto iria pro trabalho. Era melhor não arriscar. Mas Neide estava se sentindo tão sexy com a calcinha da Laís...

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

É tempo de rolezinho

É tempo de rolezinho.

E o nosso já vai começar.

Não vamos para shoppings grandes reivindicar a nossa presença.

Porque aqui não há grandes shoppings.

E se houvesse, e nós fossemos, também não seríamos expulsos.

Temos meia dúzia de roupas adequadas para o ambiente.

Moramos mal, às vezes no morro. Comemos mal, mas sobra dinheiro pra cerveja barata.

Sofremos com o aluguel. Mas não temos nenhum vizinho traficante.

Somos, na grande maioria, brancos.

Mas, se for o caso, nos declaramos negros e entramos pelas cotas.

Entraremos mesmo é no ônibus. São João del-Rei/Tiradentes. Vamos nos espremer e quem sabe arranjar um lugar pra sentar. 

Vamos todos, galera. Chamem todos. O pessoal da sala, o pessoal do curso, o pessoal da república.

Nos encontramos na rodoviária, ou talvez, na república para um esquenta.

A bebida é cara, vamos encher a cara aqui mesmo e já chegar no grau.

Podemos também levar na mochila uma bebida pra economizar e nos mantermos bêbados.

Vamos logo, se apresse. Já colocou sua melhor roupa? Aquela camisa xadrez  que você usou pra ir na balada sertaneja. Um cachecol, mesmo que no calor. A boina que roubou do seu avô. Arranja logo um óculos de aro grosso sem grau. No pescoço sua câmera semi-profissional. Camufle-se.

Vamos logo, se apresse. O ônibus já vai passar. Vamos chegar logo, ver dois ou três filmes, quem sabe uns curtas. Pode ter um complicado de entender. Só não vale admitir. Faça de conta que gostou, que entendeu, que já tinha ouvido falar. Diga o quanto estava ansioso para contemplar tal arte.

Perdeu o ônibus, amigo? Não deu tempo de chegar para os filmes? Não se preocupe. Ainda tem o último. E o último é o mais importante, não é? Ele te leva ao que interessa: O show.

It’s showtime! Encontrou amigos no show? Que legal! Vamos todos curtir juntos. Mas se alguém perguntar sobre os filmes, não se afobe. Comente o quanto achou interessante a sessão das nove. Solte frases genéricas de efeito: “Achei muito poético”. “Retrata bem a realidade”. Não quer se arriscar tanto? Solte um “Maaaassa” com um tom reflexivo.

No palco, alguma banda de MPB, Jazz, música pura e instrumental. Canções semi-conhecidas ou semi-desconhecidas que você, obviamente, vai dizer que ama. Não sabe a letra? Não se preocupe. Segure o copo de bebida junto ao corpo, olhe para o horizonte e balance na “vibe da música”.

Depois do show, tenha cuidado ao vagar pelas ruas de pedra. Capriche na fonética. Use um léxico que não é tão seu. Apesar da companhia de seus amigos da mesma cidade, você não vai querer, logo de cara, dar na cara que é nativo. Do interior de minas. Bom mesmo é se camuflar. Há cariocas, paulistas e sulistas por todo lugar. Se der sorte, ainda se encontra gringos. Franceses, americanos, italianos, gente do mundo inteiro. É a magia do cinema! Você vai querer estragar tudo por conta de seu sotaque?

Recebeu convites ao longo da cidade para uma balada depois do show? Diga que vai! Não vá transparecer assim que comprou cerveja no único, e mais copo sujo, bar da cidade. E com o troco ainda comprou um pastel de três reais. Vai dar na cara que não tem 30 ou 40 reais pra entrar na festa da cervejaria?

Não deu pra ir mesmo, não é? Não se preocupe, você pode procurar algum agito mais em conta. Será que tem movimento no chafariz? Não tem? Dê mais umas duas ou três voltas pela cidade. Sim, tem muitos morros e as ruas de pedra cansam mais e mais seus pés tão bem calçados pelo seu melhor calçado.

Cansou? Cansou mesmo? Não tem mais nada? Não tem mais nada mesmo? Corra logo então pra pegar o ônibus de volta!

E... Não tem mais ônibus! E agora? Como proceder? São duas e meia da manhã e você aí, sem ter como voltar. Vai lá na praça, quem sabe tem uma van? Não tem vans! Por que será? Olha o preço do táxi, quem sabe dá? Quem sabe seus amigos fazem uma vaquinha e vocês conseguem ir? Não deu mesmo né?

Volta na rodoviária. Confere lá se não tem mesmo mais nenhum ônibus. Não tem mesmo, né? Só as sete da manhã! Será que não tem nenhum, nenhunzinho conhecido de carro pra poder dar carona? Não tem mesmo, né? O jeito vai ser deitar na rodoviária e esperar. Bom que você descansa, né? O dia tão agitado e tudo que você quer agora é descansar. Descansar na sua casa seria o ideal. Mas e daí? Em Tiradentes você se sente em casa, não é?

E se alguém te ver deitado na rodoviária, também não há o que temer. Aproveite. É o festival de Cinema de Tiradentes. Dê uma de ator e improvise dizendo que seu amigo “bodou” e você só está ali para ajuda-lo. E se esse alguém for conhecido aproveite e já combine de voltar no dia seguinte.


Finalmente o ônibus chegou. Ufa! É hora de voltar pra república. Quem sabe ano que vem, juntando uma grana e com alguns meses de antecedência você não consegue fazer uma reserva numa pousada? Mas ainda há tempo. Depois você pensa nisso. Você está cansado e é melhor descansar. É melhor renovar as energias, pois amanhã começa tudo de novo.

domingo, 18 de agosto de 2013

Serendipidade

um poeta exilado
achou abrigo em mim
e ainda anda se manifestando
dizendo ao mundo
o aperto que passa aqui dentro

o poeta exilado
que achou abrigo em mim
não trouxe bandeira partidária
nem garantia monetária
mas não deixa de escrever à amada

descobriu
que quer mesmo é ajudar
com filantropia poética
quer curar doenças
alimentar a alma
educar os olhos
dar de brincar onde há criança

o poeta exilado
que achou abrigo em mim
parece falar outra língua
mas até entendo quando
diz que quer ficar
e não comprou passagem de volta

tem um poeta exilado
que achou abrigo em mim
e eu nem sei por qual fronteira ele passou
guarda nenhuma o persegue
nem há recompensa para qualquer informação
que leve a sua captura

um poeta exilado
achou abrigo em mim
e os americanos
aqueles putos
não enviam ajuda
aí fica difícil
matar dois de mim com um poema só.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Per un pugno di samba

Eu, que vou vivendo sem ser muito de querer, sem ser muito de ganhar, queria ganhar a vida dizendo o quanto você é linda.

Se fosse artista pintaria uma tela, uma obra prima daquelas tapa na alma, à frente de nosso tempo. De nosso tempo que ficou pra trás e que tento trazer de volta em cada tom da aquarela cotidiana das ruas.  Uma tela cúmplice dessas admirações súbitas que sinto ao te olhar, que me prende o juízo e escassa o ar dos meus pulmões. Uma tela que ficasse pendurada lá no Louvre ou na casa da minha vó Lourdes retratando meus sentidos exagerados de moço. Ou se eu pintasse igrejas! Igrejas todas só para te consagrar. Daí então os anjinhos ao pé da cruz teriam sua doçura e as santas seriam concebidas mais cheias de graça porque olhariam com a sede de seu brilho. Explicaria o sagrado: haveria lucidez na beleza. Valei-me Deus!

Se fosse um químico, inventaria uma droga bem forte e alucinógena que desse o seu barato. Intravenosa, indolor e viciante. Daquelas que dilatam os olhos da alma. Minha refinaria seria você. Você onde meu coração é doce e meus sonhos são verdes. Quanto agito, meu Deus! Quanta experiência nova você me traz! Me vê mais uma dose? Eu bolaria um plano infalível de tráfico internacional. Bem interno pra externo mesmo, algo que pudesse te transportar daqui de dentro lá pra fora, sem falhas. Sem te ter e sem te perder. Sem crimes, sem vícios, sem prisões.

Se passasse num concurso público, fosse parente de algum político, arranjasse uma bocada das boas, seria um burocrático com prazer. Trabalharia de segunda a sexta, de nove às cinco, só na marotagem. Ia mandar fazer um carimbo bem grande que dissesse o quanto você é linda. Um carimbo só não, um monte! De um monte de cor diferente, sempre tentando dizer de um monte de maneiras o quanto você é linda, carimbando toda a papelada da cidade. Toda cobrança, todo recibo, todo mandato de prisão, todo cartão de natal de vereador, tudo, tudo. Tudo com um carimbo bem grande oficializando sua lindeza pro mundo todo ficar sabendo.

Se você, princesinha, fosse uma rainha, eu seria seu bobo da corte. Um bem bobo, não desses de fazer piadas, dar cambalhotas e Deus me livre ter que me vestir de palhaço! Um bobo atônito, com olhar perdidinho de contemplação, em perceptível estado de graça. Igual eu fiquei quando te conheci, lembra? Um bobo ali sempre pronto em qualquer lugar de seu reino, sempre pronto pra te bendizer a qualquer hora. Pronto pra dizer pra você o quanto você é linda. Pronto pra dizer em seus momentos reais de alegria, tédio, paixão, desilusão ou de humanidade qualquer. Discursaria para todos os súditos do mundo, ou se quisesse, apenas para você, regente de seu reino intimista. Você é linda! Você é linda! –Diria seu bobo particular, sem bobeiras de primeira viagem. Que doidera, né?

Mas se eu fosse um doido, doido mesmo, desses que todo bairro tem, gritaria seu nome dia e noite pra acordar todo mundo. Pra todo mundo ficar de acordo comigo, com a mensagem que levaria aos quatro ventos da poesia tacando pedras em aviões. Tomaria banho no chafariz da praça proclamando que vi a luz. É, é, eu vi a luz! A luz do discernimento, não a luz desses postes que andaria chutando de madrugada tentando apagar. Gritaria que vi a verdade e seguiria mais tranquilo na vida, com as certezas mais comuns dos homens comuns, a certeza de não saber até onde vamos, mas que temos por onde começar.

Se fosse um escritor... ah se fosse um escritor! Um daqueles bem grandes, com sobrenome e tudo. Te transformaria em versos, numa musa daquelas viajantes das páginas que atravessam séculos e séculos. Te batizaria Laura, Beatriz ou qualquer nome em italiano clássico. Mas a verdade é que prefiro o seu nome. Deixamos os cânones pra lá. Deixamos as concepções antigas pra lá. Seremos nosso próprio movimento. Não quero que me entendam em italiano. Quero me sintam nessa língua universal, nessa língua sem palavras que todos carregamos conosco.

Sentiu?


Ah, lindinha. Se eu fosse escritor juro que perderia essa noite de hoje só imaginando a métrica desse seu sorriso que me dá a certeza de que posso ser o que eu quiser.

sábado, 11 de maio de 2013

Divinóia Desvairada


ali na esquina
à luz do sol
que
       assa
            crânios
            crânios?
       
na esquina?

capricha no pó
me vê um de 10
hoje quero muito, muito
acho que me viciei
culpa desses meus amigos loucos, loucos

capricha no leite ninho, moça
capricha no leite moça, moça
pode um pouco de banana também
com granola paga mais?

sábado, 27 de abril de 2013

O que tenho


        Ele não vai conseguir pegar aquela menina, não vai. Não ele, todo desse jeito dele. Olha lá, diz que fez intercâmbio pra Áustria, Austrália, sei lá pra onde. Já deve tá falando isso com ela. Conhecimento ele tem mesmo. Não vou negar. Fez curso de inglês um tempão quando moleque e judô e natação. Pra mim era só jogar bola, mas nem ligo porque jogar bola era melhor mesmo e a menina não parece ser destas que curte essas coisas de conhecimento e não vai se impressionar. Devia ser eu lá falando com ela, porque sou muito mais simpático e esse cara nem sabe de simpatia. É que ele tem esses dentes brancos e certinhos, olha só, tô vendo até daqui. Os meus dentes são meio amarelados assim e quebrados por conta do café da minha avó que é bom demais e eu tomava bastante, e comia uns biscoitos de polvilho que às vezes ficavam duros depois de um dia pro outro e quebrava, entortava os dentes. Devia ser eu falando com a menina, falando dessas coisas todas da minha vida e ela rindo, passando a mão nos cabelos, olhando pra mim com aqueles olhos cor de verde, sendo cheirosa e eu cheirando sentindo seu cheiro querendo cheirar mais e de mais perto. Eu vou lá, falar com ela, quem sabe um cheiro, eu vou lá, sou simpático e quem sabe. Mas peraí, olha ele lá agarrando ela, pegando beijando apertando indo pro canto e hoje tem.

        Na rua ali aquele outro cara lá falando de gírias com aquele outro. Falso demais. Falso que nem eu falando meu português corretamente. Saber eu sei, mas fica falso. Sabe, não pega bem em mim. Mas saber eu sei, sei dos verbos e todas dessas coisas de ler. Estudei numas escolas péssimas, mas corri atrás, fui à luta, sou batalhador, guerreiro, pardo, devia dar palestras nas escolas ruins, dar exemplos, devia aparecer na tevê, fazer umas propagandas do Governo Federal. Sei de saber português e sei de saber das gírias, conheço os chegados. Não mexem comigo. Quer dizer, teve aquela vez do Fabinho que mexeu comigo, mas não ficou muito bom pra ele, pegou mal, mexer comigo que sou de lá. E daí?, importa é que nunca me assaltaram no meu bairro, tá ligado? E o outro cara ali falando de gírias bem que pode ser assaltado porque acha que tá passando de marginal. Deve tá querendo maconha, comprar a maconha, enrolar a maconha, fumar a maconha. Maconha eu até já fumei eu sei, não precisa me olhar com essa cara, eu explico: eu tinha que saber como era e o Michael me ofereceu e eu sou simpático, o Michael é meu amigo há muito tempo de jogar bola na rua, e ele enrolou e a gente fumou, eu sou simpático não podia fazer desfeita com o Michael. Acontece que no bairro dizem que o Toninho começou assim e olha lá como ele tá, todo fodido na merda, e o cara lá das gírias e da maconha pode pagar clínica de reabilitação e virar crente, eu só posso virar Toninho e não quero virar Toninho não.

        Simpatia, é isso que tenho. Esse povo não tem. No serviço lá, aquele dia, aquele engomadinho que chegou lá, lembra? Roupa social, camisa de gola eu até tenho, mas nem uso pra trabalhar buscar trabalho porque não preciso, tenho simpatia, sei que tenho. Chegou dando conta de economia, que mexeu com contabilidade, eu nem direito o que é isso, mas tem um monte de gente que tem isso de contabilidade. Acontece que o pai do menino tem empresa, tem sobrenome, aí ficou mais fácil pro menino porque o pai dele tem a empresa com o sobrenome dele, onde o menino trabalhou de contabilidade. E eu nem sei onde meu pai trabalha, onde mora, meu pai não sabe onde eu trabalho, onde eu moro, e que onde eu moro o dono da casa já disse que vai aumentar o aluguel e eu vi que vou ter que mudar porque com o que tenho de salário do trabalho não vai dar. Se eu ganhasse o salário do menino da gola de sobrenome do polo pai social engomadinho contabilidade roupa, até teria dinheiro, porque o patrão acabou contratando ele e agora ele trabalha lá, tem dinheiro do salário além do dinheiro do pai. Mas ele não vai durar muito tempo lá não que eu sei, aí eu teria os dinheiros dele, mas não teria  muito tempo de serviço, porque ele nem conversa com o porteiro lá do trabalho, nem com o faxineiro e com a moça da cozinha. Aí eu sempre converso porque sou simpático e sei de conversar as coisas deles, e o patrão deve gostar muito muito de mim por isso e não vai me mandar embora tão cedo, mas bem que podia aumentar meu salário, ein patrão, porque o aluguel vai aumentar e meu pai tem sobrenome em português mesmo, só que não posso provar porque não tenho na certidão, mas ele mesmo fala que é meu pai e me deu uma bicicleta quando fiz dez anos.  Dá o aumento aí, dá, patrão. Considera a simpatia.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Prefiro café


Minha ex-dentista (e dá até um certo orgulho chamá-la assim de minha ex) era bonita demais para despertar confiança em alguém. Loira, gostosa, cabelos sempre ao vento do ar condicionado do consultório. Na flor da idade e com seu sobrenome italiano, daria pra ela a média de uns 26 aninhos muito bem vividos na gema da Zona Sul e um diploma de Odontologia conseguido após muito e$forço na faculdade particular mais cara da cidade. Sempre com jeans justo como o inferno cristão, tênis branco das melhores marcas, e debaixo do jaleco nunca lhe faltava uma blusinha levinha e casual que não chamasse atenção. A atenção ficava mesmo por conta de seus peitos.

Ah, aqueles peitos. Certamente a forma mais eficaz de anestesia já inventada. Eu lá sempre inclinado naquela cadeira desconfortável, com uma luz enceguecedora direto nos olhos sempre sonolentos e com a boca aberta. A boca aberta, as babas caindo, uma mangueirinha sugando tudo que encontrasse por dentro, até mesmo o oxigênio necessário para manter os pulmões de um pobre asmático funcionando razoavelmente. Aqueles peitos sempre pulando em direção à boca aberta. Peitos estes, que como a sua dona, eram bonitos demais para despertar a confiança de alguém. Sempre querendo escapar, pular pra fora da blusa, arrebentar os botões do jaleco e partir do plano das ideias para o glorioso mundo das realizações.

Das nossas conversas, feitas através de onomatopeias e sons monossilábicos possíveis de se pronunciar com a maldita mangueirinha sugadora, lembro-me de pouca coisa produtiva. O que marcou mesmo foi a blasfêmia soltada por aquela pecadora. Lembrei-me na hora das bruxas sedutoras travestidas de fadas, prontas pra dar o bote nos nobres cavaleiros solteiros. Lembrei-me das bruxas queimadas em praça pública na Idade Média, e por um instante, pareceu-me um castigo brando demais.

Foi assustador. Em português bem claro, com seus lábios deliciosos com batom bem claro, ela amaldiçoou-me:

-Seus dentes vão amarelar. Tem que parar de tomar Coca-Cola e café.

Vá de retro, Satanás!  Exorcizo-te in nomine Dei! The Power of Christ compels you!

Quisera eu ter também uma mangueirinha sugadora de pecados, para limpar a boca desse povo que não sabe o que fala. Quisera eu ter uma bíblia, uma água benta com ou sem flúor, falar cinco línguas indo-europeias mortas. Quisera eu ter defesa contra peitos. Quisera eu ter pálpebras nos ouvidos para blindá-los de escutar tanta merda.

-Prefiro ficar sem dentes a ficar sem café. Pra mim já deu. Foi bom te conhecer. Tome aqui seus cento e poucos reais. Gaste-os pagando uma das oito prestações de um sapato de grife seu. Calce esse sapato que vai empinar ainda mais sua bunda. Pegue essa sua bunda e conquiste algum empresário numa sexta-feira na boate top da cidade enquanto escuta sertanejo. E que esse empresário pegue esses seus peitos e...

Apertei os peitos dela bem forte. Ela gritou, chamou socorro, me chamou de louco. Dei-lhe razão. Não consigo me defender de quem me chama de louco. Saí, fui direto pra padaria e pedi um expresso para aproveitar os dentes que me restavam.