segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Paixão

Ela tem dezessete anos. Ela não precisa pensar no futuro quando o despertador toca de manhã, chamando-a para mais um dia comum. Ela sabe que eu adoraria pensar no futuro por ela enquanto assiste a aula e se deixa em modo de standby. Depois da escola, ela se dá ao luxo de ir para casa e procurar por uma surpresa na TV. Não encontra nada e acaba deixando no desenho animado. Então senta no sofá por uns quinze minutos. Ri uma vez a cada bloco: timidamente, movendo quase nada e rapidamente, como se esperasse outra risada para completar a sua. Durante os comerciais ela também solta uma risada, enquanto lembra de mim. Essa então é a primeira vez que eu apareço em suas lembranças. Lembra do quanto me acha fofo. Enquanto isso, já estou na sexta, ou sétima vez com ela no pensamento. Rio também, por lembrar do quanto escondi dela meu gosto por desenhos animados. Rio por cair em mim e perceber a pequenez das minhas antigas preocupações. Renasce em mim, então, todos os dias a esse horário, a primeira pequena dose diária de esperança. Minha primeira esperança é efêmera, assim como todas as outras. Não dura mais do que três blocos de um desenho animado. Talvez por isso eu tenha pensado e me conformado tantas vezes em tê-la apenas por alguns momentos. Nem que seja por alguns pequenos momentos, durante o comercial de um desenho.

Após os desenhos, os momentos passam. Após a décima quarta ou décima quinta vez que ela me vem ao pensamento, resolvo ligar. Me faço de corajoso ao olhar para aquela antiga foto que ela nem imagina que eu ainda tenho guardada. Disco seu número, um dos únicos três telefones do mundo que sei de cor, e espero cerca de cinco toques. Ela então, finalmente escuta o celular, e lembra de mim pela segunda vez no dia. Suspiro ao ouvir seu “olá”. Ela ainda demonstra paciência comigo. Ela ainda atende minhas ligações. Ela ainda tem dezessete anos.

Tento fingir qualquer coisa ao falar de mim. Tento não falar o quanto minha vida é sem graça sem ela. Acabo engasgando na minha falta de prática com mentiras. Disfarço e pergunto logo sobre ela. Então ela me conta todo o seu dia, dos caras do colégio e o quanto nossa amizade é importante pra ela. Infelizmente, acabo lembrando do nosso desenho animado no meio da conversa e o quanto ele seria mais engraçado se assistíssemos juntos. Nasce então minha segunda pequena esperancinha diária. Mas minha esperança passa só de passagem, e com ela, passam seus dezessete anos, os carinhas do colégio e até a nossa amizade. Mas a paixão, a teimosa paixão, sobrevive para contar histórias. E para fazê-las.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Y

Você me faz preferir as belas.
Cessando-me - a este jogo individual
Propondo-me a crueldade dos pensamentos
Afogados na desordem de uma certeza

Contra o ar ainda insisto,
Resistindo às manhãs
Anoitecidas
Pelo tempo deste seu não-querer

Nem mais a dor
Da distância - regada aos seus pés
Refaz-me um inconsciente
À parte - desta ironia
Forjada por fardos
De destinos passados

Me ponho, sempre, a observar
Entre tantas ideias e ilusões
Me apegando - às sombras
Tentando, em suposta lucidez,
Ser alheio aos seus devaneios vitais

À sua moda, mudo.
Aos seus caprichos, tudo.

Mas se os caminhos
Destas perdições, longas,
Mostra-me saídas
Recuo.
Recuso.
Se não sei o certo,
Prefiro o erro.

domingo, 28 de novembro de 2010

Notas sobre a (minha) felicidade

Há felicidade por todos os lugares. Nos parques, nas praças, nos lagos de carpas, nos livros que leio e no que eu pareço ser.

Mas a minha ainda não anda por aí. Por falsidade ideológica, ou por sempre saber onde pode me encontrar. A minha felicidade não sai comigo nas noites de sexta. Recusa meus telefonemas aos sábados e assim como eu, prefere não sair aos domingos.

Eu, que nunca fui tirano, tenho uma felicidade autônoma. Trabalha por si e prefere sair por aí sozinha ou má acompanhada. Então aproveita-se disso para se repartir. Enganando a si mesma como boa samaritana, tenta justificar seu compartilhamento infantil e egoísta. Faz a alegria de meia dúzia de pessoas após algumas doses de álcool. Então se aproveitam da minha felicidade. Por alguns poucos minutos e por quanto mais tempo a memória e o orgulho for capaz de sustentar. Mas ela foi feita pra mim, sobre medida. Os outros que arranjem as suas. Toda admiração alheia sobre a minha felicidade será superficial e efêmera.

Minha felicidade ainda me cumprimenta nas ruas. Faz questão de mostrar que ainda está lá. Cada centímetro e cada minuto longe dela me faz matéria-prima e refém de instintos animais demais ou humanos demais.
Procuro aceitar. Procuro não te procurar. Nenhuma felicidade é tão simples quanto na minha imaginação. Por que a minha haveria de ser?

Vá, minha felicidade. Dê suas voltas sem coleira. Tome cuidado com os estranhos. Leve seu casaco, o mundo lá fora pode ser frio. E não se esqueça que a porta dos fundos estará sempre aberta, caso você resolva voltar.

domingo, 7 de novembro de 2010

Por que o Roberto mora no Bonfim?

Roberto era um pacato morador de uma pequena cidade no interior de Minas. Quer dizer, São João era considerada pequena para maioria das pessoas, exceto por Roberto, que morava no alto do Bonfim e tinha um emprego no bairro das Fábricas. Roberto não entendia porque morava tão longe de seu trabalho. Conhecia mais gente nas Fábricas do que em qualquer outro lugar do mundo. Conhecia muito sobre todas as pessoas que trabalhavam com ele e muitas vezes desejava não conhecê-las tão intimamente. Conhecia tudo sobre o bairro, as fábricas, as padarias, os botecos, as mulheres que traíam seus maridos. Reconhecia de longe as velhas arquiteturas das casas onde seus companheiros de emprego moravam e o quanto eles gastavam menos por morarem perto do trabalho e pagar o aluguel de casas antigas.

Sobre o Bonfim, ele não sabia muita coisa. Sabia que o dono da casa velha onde ele morava, cobrava o preço do aluguel de uma casa recém-construída num bairro nobre. Uma vez Roberto passou o fim de semana numa cidade bem maior e ficou fascinado ao descobrir que as coisas funcionavam até mesmo dia de sábado. Até as imobiliárias funcionavam aos dias de sábado, então Roberto aproveitou para olhar o preço das casas equivalentes a que ele morava no alto do Bonfim. Descobriu então que pagava por uma garagem, dois quartos a mais (inclusive uma suíte), e um pequeno quintal para cachorro. Mas no Bonfim, não tinha nada disso. Talvez tivesse e Roberto não sabia, já que nunca havia entrado na casa de seus vizinhos.

O pacato morador do Bonfim morria de vontade de reclamar sobre o preço do aluguel que pagava. Sentia vontade de usar esse dinheiro e se mudar logo pro bairro das Fábricas e utilizar o que sobraria para conquistar alguma daquelas mulheres que traíam seus maridos. Pensava muito sobre isso aos sábados de manhã, já que nada na cidade funcionava naquela cidade. A tarde, procurava uma cópia do contrato de aluguel que o mantinha preso ali naquela terra de ninguém. Mas nunca achava o contrato, devido a bagunça de sua casa. Sua casa tinha dois quartos, um banheiro, uma cozinha e uma área minúscula que servia apenas para guardar algumas vassouras e uns rodos. Para um homem, sua bagunça era até conveniente, o problema era o quarto "vazio" onde ele guardava todas as suas coisas, desde as cópias do contrato até as necessidades fisiológicas do seu cachorro.

O problema poderia ser resolvido se Roberto pedisse outra cópia ao dono da casa. Mas Roberto não sabia onde ele morava e só o via uma vez por mês, quando ia lá cobrar o aluguel. Todo dia 5 do mês, o velho ia cobrar o aluguel. Ele tocava a campainha infinitas vezes e ficava esperando Roberto na porta. Seu cachorro ficava desesperado e latia como se estivesse no cio. Enquanto isso, Roberto fingia não estar na casa. Dez minutos depois, o velho desistia e ia embora. Assim, Roberto tinha mais uma semana para arranjar o dinheiro do aluguel. Todo dia12 ou 13, o sobrinho do velho aparecia lá para cobrar o aluguel mais uma vez. Com ele, Roberto não discutia, entregava logo o dinheiro no primeiro soar da campainha. O sobrinho do velho era forte e tinha uma cara de mau, além de uma fama que se estendia até o bairro das Fábricas.

Certo mês, Roberto se cansou daquela vida e resolveu pedir um adiantamento de salário e para sua supresa, seu pedido foi atendido. Ficou em dúvida se devia usá-lo para viajar mais uma vez pra cidade grande, se gastava tentanto conquistar uma mulher adúltera do bairro das Fábricas ou se guardava para pagar o aluguel no dia 5. Ele poderia até ter viajado pra cidade e então procurar por uma mulher adúltera da cidade grande, mas seu cachorro havia adoecido. Acabou gastando o dinheiro com veterinários, remédios e vacinas. Não adiantou nada e seu cachorro acabou morrendo alguns dias depois. Já era dia 5 e Roberto não tinha dinheiro para o aluguel mais uma vez. E o pobre do cachorro não estaria ali para latir como um louco quando o velho fosse cobrar o aluguel. Roberto, no fundo, sabia que sentiria falta disso.

O velho não apareceu no dia 5. Nem no dia 6, 7, 8... e nem o seu sobrinho apareceu nos dias 12 ou 13 para cobrar. Roberto achou tudo muito estranho, mas não achou ruim. Achou melhor guardar o dinheiro até o fim do mês, para não ser pego desprevinido. Acabou gastando o dinheiro outra vez e felizmente ninguém havia ido cobrar o aluguel.

Morando praticamente de graça, Roberto começou a olhar o Bonfim com novos olhos. Aos fins de tarde, sentava na praça onde conversava com os velhinhos, tentando descobrir informações sobre o velho do aluguel. Nenhum velho parecia conhecer ele, mas conheciam umas boas e velhas histórias sobre o Bonfim que faziam questão de contar. Na praça havia também um cachorro abandonado e muito simpático, e após alimentá-lo por alguns dias, Roberto resolveu levá-lo para ser seu novo companheiro de quarto.

Enquanto isso, no bairro das Fábricas, os homens eram só trabalho. As mulheres, só adultério. Roberto começava a achar isso entediante e não via a hora de voltar para o Bonfim para conversar com os velhinhos e alimentar seu cachorro.

Dois meses haviam se passado e ninguém cobrava o aluguel. Roberto já havia conseguido o dinheiro pro dia 5, já tinha dado um nome ao seu cachorro e havia, finalmente, achado a cópia do seu contrato de aluguel, que não fazia nenhuma oposição a sua mudança. Nada mais o prenderia ali se o bairro das Fábricas não tivesse ficado tão incoveniente.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Lux Lounge

Divinópolis parecia ter ficado hospitaleira demais depois que eu a abandonei. A cidade estável, com população média, qualidade de vida média e oportunidades médias despertava em mim uma saudade média e ambições de um morador de cidade pequena. Divinópolis parecia ter entrado no clima de “vou dar pro primeiro que aparecer” e o que seria bom há alguns tempos atrás, começava a me incomodar. Qualquer um era aceito em Divinópolis. De certa forma, isso era como um tapa na minha cara, que busquei a aceitação durante tantos anos sem conseguir.

Eu e Divinópolis éramos como ex-amantes forçados a manter um bom relacionamento devido a tantos segredos que escondíamos. Mas estava ficando difícil para mim. Não via a hora de ter meu próprio dinheiro e pagar logo uma bela pensão pra me livrar de todo esse inferno. A anarquia que se consolidava conseguia ser mais cansativa e sufocante do que esse cotidiano maluco destinado aos jovens das cidades médias.

A boiolagem, essa praga que havia chegado cedo demais para uma cidade média, estava lutando pelo poder divinopolitano. Isso estabelecia essa relação de “vale-tudo” nas ruas da minha cidade mais ou menos querida. O problema é que eu não achava problema nenhum nos “telecatchs” em que vivia. Nas ruas sempre havia um monte de gente muito bem arrumada indo para as igrejas, onde rezavam por suas almas pecadoras e pediam perdão por terem faltado da missa porque estavam assistindo novela. Eu não gostava de suas roupas chiques compradas a prestação, de suas igrejas com arquitetura mal planejada e de suas novelas sobre a vida nos bairros burgueses do Rio de Janeiro. Mas eu aturava as pessoas e era aturado, pois eu não era um caso perdido aos olhos de Jesus. Havia uma chance para mim. Em minha opinião, a chance era sair dessa cidade o mais rápido possível. Para o restante da cidade, uma simples ida na igreja nos domingos resolveria meu problema.

Mas para a boiolagem, não havia solução. Jesus Cristo não aceitava boiolas em seu lar. Jesus, muito esperto, tinha tratado logo de impedir que os boiolas se multiplicassem do modo convencional. No começo funcionou, mas os homens reinterpretaram as escrituras sagradas, criaram a televisão, o microondas e a internet, que mais tarde foram dominados pelos boioloas que aprenderam a utilizá-los como instrumentos para o mau. A boiolagem era um caminho sem volta e estava sendo difundida e seguida cegamente. Os boiolas estavam destinados a vagarem pelas ruas da cidade e o caos seria apenas questão de tempo. E todo bom divinopolitano sabe que não há muitas diferenças entre Divinópolis e o mundo. Se hoje Divinópolis se prostituía, amanhã seria o mundo...

Eu e a sociedade divinopolitana tentamos esquecer nossas diferenças e nos juntamos para combater o mau maior. A sociedade divinopolitana rezava, fazia promessas e fazia cara feia toda vez que aparecesse um boiola na novela das oito. Não adiantava. Eu tentava passar mais tempo nos bares, ouvia mais rock n roll no volume máximo e andava com uma camisa de futebol diferente todos os dias. Não adiantava.

Minha angústia não era opcional, mas era momentânea. Bastava eu voltar para Belo Horizonte e tentar esquecer o caos que era obrigado a contemplar durante os feriados e fins de semana. Mas eu não queria ter raízes numa terra de boiolas. Não queria ter histórias para contar com um plano de fundo manchado pela desordem e volúpia. Porém a situação se complicava cada vez mais. Enquanto eu vivia nos bairros sujos e distantes da minha cidade adotiva, Divinópolis iria se consolidando no ramo boiolístico e a notícia de cidade dos boiolas já ultrapassavam os limites estaduais. Mudei-me de cidade mais algumas vezes, cheguei até a sair do estado, mas não adiantou. Estava difícil esconder os segredos de Divinópolis.

Com o tempo e a primavera, vieram as paradas boiolas, as calças jeans coloridas de boiolas e a Primeira Igreja dos Boiolas do Reino de Deus. Era boiolagem demais.

Com o tempo, eu desisti. Não havia mais como voltar para Divinópolis. Não havia como limpar todas as merdas que os boiolas fizeram. Fui motivo de zombaria por todas as cidades que passei. A única solução foi tentar a vida no exterior.

Jesus havia me dado uma salvação. Na Europa, todos me entendiam. Sentiam minha angústia e contemplavam minha dor com uma empatia ímpar. Eu era compreendido nos botecos, nos cafés, no Facebook e nas teses acadêmicas. As vendas dos meus livros deslancharam como a boiolagem em Divinópolis.

Após longos e felizes anos na Europa, eu não sentia saudade de Divinópolis, do Brasil ou da minha juventude. Me sentia anestesiado e devidamente disfarçado com rugas, calvície e um ar de intelectual decadente. Fui convidado para passar uns dias em Belo Horizonte. Havia um convite muito bem remunerado para dar uma palestra em uma universidade. Após ter visitados diversos países, achei que o meu trauma já tivesse sido superado. Tive oportunidades de contemplar lugares piores do que o Brasil e com mais boiolas do que Divinópolis.

Na universidade conversei com alguns professores, que pareciam ter feito a lição de casa: puxaram muito meu saco e não se ousaram a comentar sobre meu lugar de origem. Logo após tomei um bom café mineiro antes de entrar no anfiteatro. Lembrei do café de minha avó. Lembrei de Divinópolis e das poucas coisas boas que existiam lá, como o café, a minha avó e meu cachorrinho que morreu de velhice (ou de tédio).

Ao entrar no anfiteatro, recebi uma apresentação sebosa, uma salva de palmas, uma jarra com água e uma cadeira confortável. Depois me deram um microfone. Comecei perguntando se haviam divinopolitanos presentes. Uns vinte levantaram a mão. Mandei todos à merda. Falei algumas verdades que me engasgavam há anos. Fui vaiado. Retruquei falando sobre o número das minhas vendas na Europa. Fui ainda mais vaiado. Algumas pessoas começaram a sair do recinto, outras começaram a rasgar meus livros. Outros arremessaram livros covardemente contra a velha casca de um escritor mal compreendido. Vi o ódio nos olhares de cada divinopolitano. Pareciam ogros possuídos por uma raiva instantânea que duraria a eternidade. Pareciam homens.

Fui impedido de continuar a palestra, saí vaiado e com uma escolta de seguranças. Já havia um carro da universidade me esperando. Para o aeroporto? Perguntou-me o motorista. Perguntei se já existiam vôos regulares para Divinópolis, ele respondeu que não. Paguei-o qualquer cinqüenta pratas para ficar de boca fechada e mandei-o correr para a rodoviária a tempo de pegar o próximo Teixeira.



Notas do Autor: Lux Lounge: Nova boate quase gay de Divinópolis.

Teixeira: Única empresa de ônibus que faz o trajeto Belo Horizonte - Divinópolis.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Ritápolis

Rita tinha uma cara de quem algumas vezes na vida, ouviu alguém dizer que era bonita. Rita acreditava nisso com muita convicção, embora não tenha ouvido isso de um número considerável de pessoas com boas índoles e boas intenções.

Se tratando da aparência, Rita não era nem um pouco bonita. Tinha nome de gente feia, tinha cara de gente feia, tinha problemas de gente feia, tinha costumes de gente feia, tinha um cachorro de estimação de gente feia e comida na geladeira de gente feia. Mas tinha amores de gente bonita.

Rita amava rapazes muito bonitos. Um deles se chamava Paulo.

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Paulo era considerado bonito pelos feios e pelos bonitos. Paulo não fazia muita coisa da vida, além de ser bonito. Já Rita, sofria de vários dilemas todos os dias, só pra tentar mater sua feiura (ou beleza, como ela gostava de chamar). Ela sempre estava muito feia depois de acordar, então passava uns bons vinte minutos e umas vinte gramas de creme capilar pra tentar abaixar o seu cabelo duro. Não adiantava. Qualquer coisa que fizesse, não adiantava. Creme capilar, tintura de cabelo, cirugia plástica, simpatia, macumba ou o que quer que seja. Rita continuava feia e passava o resto do dia com cara de quem é feia. Mas disseram que ela era bonita umas vezes, então...

Paulo passava o dia com cara de quem é bonito. Mas tinha o azar de encontrar com gente feia de vez em quando. Essa gente feia ficava olhando Paulo, assim como os bonitos faziam, mas tinham aquele olhar de gente feia. Isso incomodava Paulo, porque ele era muito bonito.

Paulo sentia que ele embelezava o mundo. Quando alguma pessoa feia olhava para ele, segundo ele, acabava pegando um pouco de sua beleza. Era uma quantidade muito pequena de beleza, se comparada ao tamanho da beleza de Paulo. Mesmo assim se sentia incomodado, pois morria de medo de perder sua beleza por tantos olhares que recebia. Paulo ficaria feio definitivamente uns quarenta anos mais tarde, mas isso não é assunto para agora.

Uma vez Paulo decidiu parar de sair. Não queria dar mole para o resto do mundo. Preferia ficar trancado em casa olhando para o espelho e se lembrando das mulheres que pegou. Não conseguia se lembrar de nenhuma feia e de nenhuma à sua altura. Namorando o próprio espelho, descobriu que ficava ainda mais bonito se deixasse a barba crescer por alguns dias. Então resolveu parar com as mulheres por algum tempo. Só até o tempo da barba crescer, dizia ele, depois ficaria fácil encontrar uma mulher do seu nível.

Mas as mulheres não paravam com Paulo. As mulheres não esperariam a barba de Paulo crescer para vê-lo ainda mais bonito. Desejavam de Paulo a todo instante, esteja ele com barba, careca ou com uma perna a menos. Elas insistiam de toda maneira pela volta de Paulo, ligavam para ele o dia inteiro, enviavam e-mails, tocavam o interfone desesperadamente... mas nada. Paulo estava destinado a permanecer no seu retiro da beleza.

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Rita conheceu Paulo de uma maneira estranha.

Enquanto Paulo estava no seu retiro domiciliar, Rita estava em um salão de beleza. Paulo estava se admirando no espelho e Rita estava lendo uma revista feminina e ouvindo algumas fofocas. A revista dizia o que uma mulher deve fazer para ficar com seu amado uma semana e se deveria ou não fazer amor logo no primeiro encontro. As fofocas diziam que todos os homens não prestavam. TODOS não prestavam. Rita, enjoada daquela conversa, pegou a revista, colocou-a na bolsa e saiu do salão com cara fechada. Ela saiu no meio do seu corte, sem dar satisfação e dinheiro a ninguém. Saiu feia como ninguém, com metade do cabelo cortada e outra metade "estilo-Rita".

Enquanto prelambulava pelas ruas, alguns fios de cabelo de Rita iam caindo, formando um inigualável rastro de feiura por onde ela passava. Provavelmente era culpa de algum dos milhares de produtos químicos que a cabeleilera havia passado no cabelo de Rita, tentando poupá-la de tanta feiura. Mas nada funcionava. Rita continuava feia e continuava se achando bonita, pois alguém, há muitos séculos atrás, disse que ela era bonita...

Rita andou e andou pelas ruas, até achar um prédio com várias garotas bonitas na porta. As garotas estavam ali em frenesi, aguardando algum sinal vindo de Paulo. Todas estavam tomadas pelo sentimento de admiração por Paulo, que parecia ser contagiante. Ali só se falava de beleza e de amor, então Rita parecia ter encontrado seu lugar ideal. Resolveu puxar papo com algumas três garotas que ali estavam. Ao primeiro olhar, as garotas perceberam como Rita era feia. Fizeram cara de nojo ao perceber o rastro de seus cabelos no chão. E claro, ficaram com medo de pegar a feiura de Rita. E começaram a gritar sem motivos e correr sem sentido pra qualquer lugar. Só queriam estar ali, longe de Rita.

Rita não entendeu nada. Ficou muito triste, pois tinha acabado de perder de vista aquelas pessoas que eram como ela. Elas eram tão bonitas e amavam tanto... eram tão iguais a Rita, mas agora tinham ido embora, todas foram embora em frações de segundo. Rita apenas sentou-se na porta do prédio e resolveu chorar.

O mundo de Rita havia voltado. Ela continuava se achando a última pessoa bonita do mundo que tinha amor pra dar. Tudo parecia estar perdido para Rita, que parecia começar a enxergar o mundo com os olhares de gente feia.

Enquanto isso, lá no oitavo andar, Paulo se deu conta que as mulheres haviam parado de te perseguir. Achou tudo muito estranho e resolveu dar uma saidinha na porta do prédio pra ver o que tinha acontecido. Chegando lá, viu apenas Rita cabisbaixa e chorando soluçadamente. Achou que tudo melhoraria se chegasse mais perto dela, ou seja, se ela podesse contemplar mais de perto a sua beleza.

Não funcionou. Nem a beleza de Paulo era suficiente para amenizar o sofrimento de Rita. Conversaram por alguns minutos. Paulo ouviu todo dilema de Rita. E a entendeu perfeitamente, pois sabia o quanto era difícil ser bonito. Mas nada fazia passar o choro de Rita. Tantos dias sem mulheres (foram dez dias, que mais pareceram uma eternidade para Paulo) pareciam ter mudado um pouco dos conceitos universais sobre beleza.

Paulo, desesperado, levou Rita para o seu quarto, tirou sua roupa e amou loucamente durante mais de uma hora. Rita não chorou durante essa hora, mas voltou a chorar quando Paulo virou-se para o lado e dormiu. Rita aproveitou a situação, vestiu sua roupa, pegou alguns lenços de papel para enxugar suas futuras lágrimas e foi embora à francesa.

Paulo acordou desesperado, sem Rita ao seu lado. Apenas pode se contentar com um bilhete dizendo "Nós, as pessoas bonitas que sabem amar, somos muito poucas hoje em dia. Sinto muito que você não pertença a esse seleto grupo de pessoas. Te desejo melhor sorte na próxima encarnação".

Paulo refletiu durante longos cinco minutos e achou melhor tentar a sorte na próxima encarnação. Abriu a janela do seu quarto, ainda com o cheiro de Rita e jogou-se do oitavo andar. Paulo e o cheiro de Rita tinham ido embora daquele templo da beleza, venerado tantas vezes por tantas pessoas.

Rita nunca mais soube de Paulo. Nunca mais procurou saber de Paulo. Nem de Paulo, nem de beleza, nem de amor, nem de nada.

Rita, finalmente, havia acordado, se olhado no espelho e se achado feia.