quinta-feira, 17 de março de 2011

Talvez hoje

Talvez essa felicidade instantânea esconda secretamente alguma razão

Talvez hoje, mesmo que sozinho, eu tenha acordado com o pé direito

Talvez a sorte venha há tempos me observando

Talvez mais méritos coexistam em mim

Talvez a distância se quebre, assim como meus medos

Talvez eu tenha andado com pressa ultimamente

Talvez o tempo venha me pregando peças

Talvez o tempo tenha resolvido fantasiar de um sorriso seu

Talvez o tempo também seja irônico

Talvez o tempo seja controverso, e contra os versos que te escrevo

Talvez ainda haja tempo

Talvez hoje, a dor que me espera, me anestesiará

Talvez hoje, a felicidade diária queira se concretizar

Talvez hoje, a minha espera termine

Talvez hoje, meu término me reinicie

Talvez hoje, me sirva te abraçar

Talvez hoje eu apenas agradeça a essa tal vez que te conheci.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Costas

Preciso de um desses seus abraços. De um, desses, que no fim das noites você tenta buscar em qualquer homem que te diga mentiras agradáveis. E assim como eu, sabe que fracassa. E assim como eu, leva mais um dia de desilusão pra cama, apesar de estar sempre com a libido em dia. Mas não se importa, ainda haverá tempo. Mas quem de nós pode falar de tempo?

Você anda por essa cidade de espelhos, de reflexos e de elogios poucos sinceros e se garante: ainda haverão mais uns vinte e cinco ou trinta anos dessa sua beleza instantânea, covarde aos olhos dos amantes e dos desiludidos de primeira viagem. Distribui sorrisos fáceis por aí, sem se preocupar com sua perda de espontaneidade. Talvez por lembrar de fazer-se lembrança para quem te faria sorrir na varanda de sua casa, reparando a pequenez das juventudes ou os desgostos das maturidades.

Enquanto eu estou sempre aqui, carregando como certeza apenas a inquietante dúvida entre a eternidade do simples e a efemeridade dos desejos. Me contentando em ser ouvidos, me condenando em me contemplar. Seguindo, ainda sem saber por onde, e tentando tirar as sinas pesadas demais sobre essas suas costas tão apertadas. Apertadas, acariciadas, desejadas, abraçadas. Ou quem sabe, destinadas.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Gostosas

Em qualquer um desses próximos dez dias completarei dois meses de sobrevivência nessa cidade que tanto se parece comigo. Lá em casa, lá na minha cidade, ainda tentam encontrar algum motivo que possa justificar minha mudança. Foi uma mudança a trabalho, segundo minha mãe. Para meu pai, foi alguma mulher que encontrei. Para minhas tias, ainda não me livrei das drogas e acabaria morrendo de AIDS qualquer dia desses se não encontrasse Jesus. Meus amigos, se é que posso chamá-los assim, ainda nem perceberam que me mudei. No fundo agradeço a todos por ainda me colocarem na categoria das pessoas que precisam de motivos para sobreviver.

Só espero que um dia todos entendam que as pessoas mudam. Mesmo as pessoas que não acreditam em mudanças, acabam mudando.

Aqui tenho um trabalho fixo: o de trabalhar com qualquer coisa. Ainda não descobri muito bem pra que sirvo naquela “empresa” que fica naquela rua que ainda não sei o nome. Comecei como motorista de uma caminhonete velha, mas logo me rebaixaram de cargo por não conhecer nenhum lugar da cidade e passar mais tempo pedindo informações do que dirigindo e entregando aquelas caixas de biscoito. Duvido muito que realmente contenham biscoitos naquelas caixas. Falta preocupação com vigilância sanitária naquele lugar, onde sobram ratos, mofo e fortes cheiros de produtos químicos pouco usuais. A preocupação com a polícia é resolvida quinzenalmente, quando aparecem um tenente e dois sargentos para buscarem um malote pra lá de suspeito. Enfim, isso não deve ser do interesse de um cara que atualmente foi rebaixado a empilhador de caixas. Empilhadores de caixas devem se preocupar com caixas, bebidas e gostosas.

Todos os dias após largar o serviço por volta de oito da noite, passo no hotel meia-estrela onde me abrigo às vezes, guardo meu uniforme carinhosamente no chão, pego um casaco qualquer e parto para o bar do Mauro, onde me abrigo sempre.

No caminho entre o hotel e o bar, há muitas gostosas. Muitas, muitas mesmo. Partem de algum lugar desconhecido e vão para algum lugar que eu não sei. Mas elas sempre estão cruzando o meu caminho, andando, sendo observadas e sendo gostosas. Às vezes sinto que observá-las será minha única alegria do dia, então paro na esquina e como um bad boy apoio um dos meus pés na parede, acendo um cigarro e faço cara de estar esperando alguém ou ninguém. Quando tenho sorte, noto alguma reação de uma dessas garotas gostosas e menores de idade que adoram bad boys. Lançam-me olhares baratos e sedutores, os quais nunca consigo responder à altura. Então cai a minha máscara e a minha jaqueta de couro e a minha postura e os meus cigarros de bad boy. Decido recolher-me a minha insignificância de empilhador de caixas, abaixo o olhar e sigo logo para o bar, um lugar de fracassados como eu.

No bar, vivo me perguntando pra onde vão tantas gostosas. Chego a perguntar para o restante dos fracassados qual seria o destino delas. A maioria responde que vão para eles mesmos. Inventam inúmeras mentiras a fim de me fazer acreditar que andam comendo caviar na marmita. O Moacir, por exemplo, ontem mesmo jurou ter comido uma gostosinha de 17 anos. E diz isso como se não tivesse passado o dia inteiro no bar, onde acabou dormindo debaixo de uma mesa, graças à desatenção do Mauro. Finjo que acredito, embora minha expressão não demonstre nenhum sinal de convencimento, o que faz os fracassados insistirem com as mesmas histórias ou outras ainda mais miraculosas em alguns minutos.

Um dia pensei em perguntar sobre as gostosas pro Fernando, um cara com cerca de trinta anos que parecia ser o menos fracassado freqüentador do bar. Talvez eu até acreditaria se o Fernando contasse um desses contos de fadas masculinos contados pelos fracassados. Ele era um cara com bom papo, estudado, aparentemente da classe média e parecia estar passando apenas por um momento ruim, devido a uma briga com seu pai, que te deu de presente o seu antigo carro, ao invés de comprar um zero quilômetro. Certo dia, após muitas biritas na cabeça, acabei admitindo que o Fernando tinha lá seu charme, o que me gerou vários problemas no bar. Então era bom evitar conversas diretas com ele, em nome da minha reputação.

Um dia pensei em perguntar a Marcinha, a única das gostosas que conhecia. Ou melhor, a única das gostosas que eu conhecia o nome. Marcinha já estava pra lá da casa dos trinta anos, o que já lhe dava atributo de veterana entre as gostosas mais novinhas. Marcinha andava sempre com três amigas, duas dessas loiras de farmácia que já deviam ter sido contempladas com a felicidade de arranjar um velho rico, mas decidiram abandonar tudo e voltar para a pobreza em nome do seu amor maior: transar com qualquer cara. Também nunca me esqueço daquela ruiva, que pelo contrário das loiras, parecia ter no cabelo o seu único atributo original de fábrica. Sempre me perguntava se aquelas gostosas novinhas sobreviveriam ao tempo como Marcinha e suas amigas, mas todas pareciam não se preocupar muito com o tempo, todas eram efêmeras. Tirando as quatro gostosas acima dos 30, todas as gostosas pareciam brotar do nada e acabar indo para lugar nenhum e nunca mais cruzavam o caminho entre o hotel e o bar. Tudo isso só aumentava minha suspeita sobre o destino das gostosas: elas deviam encontrar homens ricos, bonitos, inteligentes ou qualquer atributo que os diferenciem bem de mim e assim mudavam com eles pra qualquer cidade/estado/país, por qualquer motivo ou porque as pessoas mudam.

Um dia perguntei pra Marcinha. Ela assustou e perguntou como eu sabia o nome dela. Não soube responder e disse que não interessava. Então ela disse que também não interessava saber pra onde as gostosas vão. Insisti perguntando porque ela e suas amigas sempre estavam lá, ao invés de simplesmente sumirem do mundo como as outras gostosas. Ela retrucou dizendo que não me interessava e ainda me mandou tomar no cu. Fiquei calado por instantes, tentando achar mais alguma dúvida que me intrigasse. Não achei. Levei um tapa no rosto daquelas mãos lindas, macias e perfumadas de Marcinha, que depois virou de costas e saiu andando como uma mulher pra lá dos trinta que continua gostosa como uma de dezessete. Aproveitei pra olhar sua traseira, tudo ainda estava em cima. Aproveitei também pra dizer que se ela continuasse assim sem sumir pra nenhum lugar com qualquer homem rico/bonito/inteligente/diferente de mim, ela poderia me procurar. Mas só se continuasse gostosa, porque as pessoas mudam. Mesmo sem querer, acabam mudando. Sempre mudam.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Aluga-se solidão

Ela me olhou nos olhos como uma cadela apaixonada. Apaixonada, mas abandonada numa sarjeta e então implorou: escreve uma poesia pra mim!

Esbocei uma resposta negativa e impaciente, mas respirei fundo e como sempre, achei melhor mentir do que ser mal educado. Enfiei a mão nos bolsos, a fim de parecer que estava procurando qualquer coisa. Senti a textura de algumas pratas, um pedaço de papel e um maço de cigarros. Embora o volume dos meus bolsos indicassem o contrário, respondi a garota com convicção: Não tenho nada aqui, me desculpe.

Ela olhou nos meus olhos de novo, dessa vez com um olhar ainda mais verdadeiro, em resposta a minha mentira tão indiscreta. Obrigada, que Deus te ilumine mesmo assim, ela disse com uma voz meio presa, mas que fazia sua esperança transbordar por soluços: um dia ela ainda seria amada.

Me sensibilizei com aquela baboseira por alguns dois minutos. Mas logo lembrei que ainda tinha contas para pagar naquele mês e cigarros para fumar. E segui em frente, caminhando apressadamente por aquela rua com cheiro de abandono.

Fui parado outra vez.

Ele me olhou como um amigo de infância que eu não via há muito tempo e implorou:

-Ô doutor, me arranja um real ae pra comprar cachaça.

-O quê?

-Me arranja um trocado pra mim comprar leite pras criança.

-Ah sim, claro. Tome aqui. Mande um beijo pras crianças!

Ganhei um abraço indesejado. O homem cheirava mal e havia me pegado de surpresa. Mas aquele foi o único e melhor abraço que havia ganhado no dia.

E assim, me sentindo abraçado e fedido, consegui virar a rua no fim daquela noite, tomando o caminho de volta pra casa. Também tomei um banho para me livrar do cheiro do pai das crianças. Me incomodava dormir sozinho, mas pelo menos dormiria de banho tomado e com a sensação de dever cumprido.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Saudações de um Power Ranger Azul

Olá pessoas, tudo bem? Faz tanto tempo que não nos vemos que acho melhor me apresentar outra vez. Sou um Power Ranger Azul. Sim, um daqueles caras que eram Power Rangers Azuis na infância. Talvez vocês sejam enganados pela memória e não me reconheçam assim, subitamente. Talvez seja difícil se lembrar de mim, pois nunca tive uma fisionomia ou uma personalidade marcante. Mas eu sempre estava ali, com a turma do bairro, apenas sendo um Power Ranger Azul. Sempre fui um Power Ranger Azul. Mas confesso sobre as vezes que tentei ser um Power Ranger Vermelho. Não lembro se tentava isso por crise existencial (algo completamente comum entre os Power Rangers Azuis) ou por pensar que tentar ser um Power Ranger Vermelho era a principal função dos Power Rangers Azuis. Mas não era. A principal função de um Power Ranger Azul é ser um Power Ranger Azul para sempre. Isso se chama de predestinação.

E hoje em dia eu gostaria justamente de agradecer, a todos vocês, por nunca me deixarem ser um Power Ranger Vermelho. Meus sinceros agradecimentos, a todos vocês, que apesar de serem crianças, nunca enxergaram em mim um líder, um herói de verdade ou um novo messias das artes marciais. Obrigado também por me reconhecerem como um Power Ranger. Apesar de Azul, eu era um Power Ranger. E estava sempre ali, com todos vocês: o Verde, o Branco, a Amarela, a Rosa, e é claro, com o Vermelho. Apesar de não desempenhar um papel tão importante no nosso grupo, aprendi muito nessa fase tão importante da vida. Eu estava ali, observando e aprendendo. Aprendi mais do que centenas de golpes de kung-fu, manuseio de armas ou como evocar o Megazórde. Aprendi a viver. Aprendi a viver como um legítimo Power Ranger Azul.

Não sei se isso é sinal de velhice, mas às vezes a nostalgia parece ser a maior inimiga. Não lembro se aprendi a derrotá-la no tempo em que lutávamos juntos. Sempre me lembro do tempo em que lutávamos juntos! E espero contar todas as nossas histórias para meus filhos e netos. Torço para ter uma boa resposta para quando for indagado: “Por que você não era um Power Ranger Vermelho?”. No fundo acho que não saberei o que responder. Não sei se as crianças estão preparadas para estas respostas complexas da vida. Também não gostaria de negar que sou um Ranger Azul. Não faço mais questão da minha identidade secreta, como na infância. Descobri, ainda que tardiamente, que quando se é um Ranger Azul, sua identidade não importa muito.

E sobre vocês, Power Rangers do bairro e de todas as partes do mundo. E sobre vocês? Vocês ainda são verdadeiros Power Rangers? Ainda mantêm identidades secretas? Ainda salvam o mundo? Como eu gostaria de estar com vocês outra vez...

Ahh, sobre o que eu estou falando? Todos vocês ainda devem estar ocupados demais para dar atenção para um mero Power Ranger Azul...

domingo, 26 de dezembro de 2010

So it goes

Não se preocupe com os pernilongos à noite. Não, não se preocupe enquanto me tiver na cama ao seu lado, observando seu corpo tão mulher, dormindo seu sono de criança. Faço questão de garantir seu bom sono enquanto tento adivinhar seus sonhos, após ler Freud ou seu horóscopo no jornal. Não se preocupe por eu nunca lembrar dos meus próprios sonhos depois de acordar. Não há mal nenhum em deixar para inventá-los enquanto estou acordado.

Não se preocupe com o doce do café. Meu paladar matinal se saciará com um daqueles beijos que te roubo enquanto você sorri. E assim, querendo acertar no café, meio sem querer, chamará minha atenção para o sol estampado em sua camisa. Esquecerei do dia chuvoso lá fora e até mesmo do dia do meu aniversário que se aproxima.

Não se preocupe com minha tristeza nas noites de quarta, após ver meu time perder mais uma vez, com aquele gol feito perdido pelo atacante. Vou xingá-lo muito, você sabe. Você se assustará com a quantidade de palavrões que conheço. Mas também sabe que vou perdoá-lo ao ver sua entrevista. Ele inventará desculpas, pedirá desculpas. Eu irei entendê-lo, por empatia, e lançarei aquele olhar-convite para o clube dos homens que erram.

Não se preocupe com meu inglês. Não se assuste com as vinte palavras que sei em francês. Não se preocupe por eu conseguir enxergar além do português naquele livro de poesias que você me deu, e que nem imaginava que seria tão bom assim. Não se preocupe com o Godard, com o Baudelaire ou com o Dalí. Me satisfaço com aquelas três músicas do Chico que aprendeu a gostar.

Não se preocupe com o copo mal lavado em cima da pia. Acho que copos se lavam apenas passando uma água, rapidamente. Você gosta de bucha, detergente, sabão, Bombril. Não se preocupe se chegarem visitas. Sabemos do jogo de copos que sua mãe te deu e que está guardado no armário, esperando para ser utilizado em caso de emergência.

E não se preocupe sobre todo aquele amor que se falava nos últimos três mil anos de civilização ocidental. Falamos nele num domingo distante, por alguns oito minutos. Você me chamou de otimista. Já eu, decidi não me preocupar em te classificar. Não se preocupe em me amar.